Microbiota intestinal, dieta e saúde humana.

Estudos investigam que a dieta pode modular as interações entre microbiota e indivíduo anunciando uma futura abordagem terapêutica promissora que, juntamente com o estudo genético do indivíduo, apontam para o caminho da nutrição de precisão.

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Já falamos em outros momentos sobre a importância da microbiota intestinal no contexto da nutrição e saúde humana.

Mas, como hoje comemora-se o dia mundial da saúde digestiva e em virtude da importância desse tema, vamos retomar a discussão com um artigo muito interessante, que, por meio de uma revisão sistemática, avalia os efeitos de vários componentes dietéticos comuns na microbiota intestinal.

Isso porque, estudos recentes têm demonstrado que alterações na dieta podem induzir a mudanças microbianas temporárias em um curto período de tempo (aproximadamente 24 horas), reforçando a hipótese da utilidade terapêutica em alterar a composição microbiana através da dieta.

Mas afinal, o que é o microbioma?

O microbioma intestinal humano engloba 1014 microrganismos residentes, incluindo bactérias, vírus, fungos e protozoários, que são habituais do trato intestinal humano, sendo que as bactérias representam o grupo mais bem estudado até então. De forma geral, os grupos bacterianos predominantes no microbioma são Firmicutes Gram-positivos e Bacteroidetes Gram-negativos.

E de que forma a composição da microbiota pode estar relacionada às doenças?

Estudos que examinaram a composição e o papel do microbioma intestinal em diferentes estados de doença revelaram associações com doenças inflamatórias intestinais (DII), doenças inflamatórias da pele, como psoríase e dermatite atópica, artrite autoimune, diabetes tipo 2, obesidade e aterosclerose. Por exemplo, pacientes com DII tendem a ter uma diversidade bacteriana menor, assim como um menor número de Bacteroides e Firmicutes.

E é aí que entra o papel da dieta: uma vez que o consumo de determinados tipos de alimentos produz mudanças nos tipos de bactérias existentes em cada indivíduo.

Por exemplo: a ingestão de proteínas animal correlaciona-se positivamente com a diversidade microbiana global (quanto maior a ingestão de proteína animal, maior a diversidade microbiana), aumentando a abundância de organismos tolerantes à bile, como os Bacteroides, Alistipes e Bilophila, e reduz a representação do grupo Roseburia/E.

Uma dieta rica em gordura saturada parece aumentar a contagem de anaeróbios totais da microflora e a abundância relativa de Bacteroides e Bilophila. Além disso, uma dieta rica em gordura reduz negativamente A. muciniphila e Lactobacillus, que são associados com um metabolismo saudável. Na prática, portanto, esse resultado fornece um bom exemplo de como a intervenção dietética (ou seja, a redução do cnsumo de gorduras) pode potencialmente ser usada para lidar com doenças complexas, como obesidade e diabetes.

Já em relação ao consumo de gorduras insaturadas, estudos em humanos não relataram que altera significativamente o perfil bacteriano do intestino; entretanto, estudos com camundongos relataram aumentos de Actinobacteria (Bifdobacterium e Adlercreutzia), bactérias do ácido lático (Lactobacillus e Streptococcus) e Verrucomicrobia (Akkermansia muciniphila).

Para o grupo dos carboidratos, tanto os carboidratos digeríveis quanto os não digeríveis são comumente relatados na literatura aumentando as bactérias Bifdobacterium e suprimindo Clostridia, enquanto apenas os carboidratos não digeríveis são utilizados para aumentar Lactobacillus, Ruminococcus, Eubacterium Rectale e Roseburia.

Tanto os probióticos como os polifenóis aumentam as bactérias Bifdobacterium e o ácido láctico, enquanto reduzem as espécies entropatogênicas Clostridia.

Mas, além do papel da dieta, os avanços na pesquisa de microbioma sugerem novas possibilidades terapêuticas para doenças que tradicionalmente são difíceis de tratar. Um bom exemplo desse avanço é o transplante de microbiota fecal, que tem sido usado com sucesso para tratar várias doenças, incluindo colite ulcerativa, colite associada a Clostridium difcile, síndrome do intestino irritável e até mesmo a obesidade.

Mas, é importante ressaltar também que nem toda alteração no microbioma pode ser atribuída a dieta, uma vez que o genótipo, ou seja, a composição genética do indivíduo também desempenha um papel importante, e que essa interação microbioma – indivíduo é fundamental para a manutenção da saúde humana.

De toda forma, a observação de que a dieta pode modular as interações entre microbiota e indivíduo anuncia uma futura abordagem terapêutica promissora que, juntamente com o estudo genético do indivíduo, apontam para o caminho da nutrição de precisão. Ou seja, um caminho longo ainda a ser trilhado, mas bastante promissor!

 

Referências bibliográficas:

Singh, R. K., Chang, H.-W., Yan, D., Lee, K. M., Ucmak, D., Wong, K., … Liao, W. (2017). Influence of diet on the gut microbiome and implications for human health. Journal of Translational Medicine, 15(1).doi:10.1186/s12967-017-1175-y

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