Hábito de fumar: impactos ao longo da vida.

Estudos recentes têm evidenciado que a adoção a um estilo de vida saudável e o hábito de não fumar estão associados a redução do risco de desenvolvimento de doenças crônicas.

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Vamos fechar o mês de maio abordando um último pilar da medicina do estilo de vida: os vícios. Hoje falaremos especificamente do hábito de fumar, com mais uma discussão sobre medicina do estilo de vida.!

Segundo dados publicados na Revista Brasileira de Epidemiologia, no período de 2008 à 2013, ocorreu uma redução média de cerca de 19% no consumo de tabaco no Brasil, em ambos os sexos e para todas as faixas etárias. Segundo a mesma publicação, o consumo do tabaco no país é um dos mais baixos do mundo e declinou de forma significativa, o que pode ser explicado pelas políticas de controle, regulação e prevenção ocorridas no país nos últimos anos.

E o grande avanço nas políticas públicas de controle, regulação e desincentivo ao fumo se deve ao crescente número de evidências científicas mostrando que fumar é um dos fatores de risco mais importantes para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, especialmente as doenças circulatórias, como hipertensão, acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio; mas também, a diferentes tipos de câncer, entre eles, pulmão, da cavidade oral, esôfago, estômago, cólon, bexiga, rins, colo do útero e, as doenças respiratórias crônicas, principalmente, a doença pulmonar obstrutiva crônica.

Além disso, estudos recentes têm tentado estabelecer uma relação causal entre tabagismo e incidência ou mortalidade por câncer. Passarelli e colaboradores observou que pacientes que pararam de fumar tiveram uma redução de 33% na taxa de mortalidade por câncer de mama.

E mais ainda, alguns estudos têm demonstrado que o risco do desenvolvimento de câncer pode ser diferente de acordo com a idade em que se começa a fumar.

Vejam que interessante:

Um estudo que investigou o efeito do tabagismo sobre o risco de câncer de mama em uma grande coorte populacional (102,098 mulheres), em que muitas participantes começaram a fumar ainda na adolescência, foram acompanhadas por aproximadamente 9 anos.

Os resultados mostraram que as mulheres que fumaram por pelo menos 20 anos e fumaram 10 cigarros ou mais por dia tiveram um risco relativo 34% maior para o desenvolvimento de câncer de mama.  Mas, o risco do desenvolvimento de câncer também variou de acordo com o início do tabagismo: aquelas que iniciaram o tabagismo antes do primeiro parto apresentaram risco de 27% maior; as mulheres que iniciaram o tabagismo antes da menarca o risco foi de 39% maior ou antes dos 15 anos, o risco foi 48% maior.

Em contrapartida, as mulheres que fumaram por pelo menos 20 anos, mas começaram após o primeiro parto, não apresentaram risco aumentado de câncer de mama.  O estudo conclui, portanto, que os dados reforçam a ideia de que as mulheres que começam a fumar na adolescência e continuam a fumar por pelo menos 20 anos podem aumentar o risco de desenvolver câncer de mama.

Além disso, um outro estudo conduzido por Gonzalez e colaboradores, publicado no The New England Journal of Medicine, mostrou que o risco de mortalidade entre indivíduos que nunca fumaram e a população em geral (incluindo fumantes) é igual, se ambos estiverem com um Índice de Massa Corporal adequado.

Em um outro estudo, agora de intervenção, 1232 homens com alto risco de doença coronariana foram submetidos por 5 anos a uma intervenção randomizada. A intervenção dietética consistiu principalmente em diminuir a ingestão de gorduras saturadas e aumentar alimentos, como peixe e legumes. Os indivíduos com excesso de peso também foram encorajados a reduzirem o peso e, os fumantes foram aconselhados a parar de fumar.

Os resultados mostraram que a intervenção (dieta, redução de peso e parar de fumar), ou seja, receber conselhos sobre um estilo de vida saudável levou a um risco reduzido de mortalidade coronariana a longo prazo, durante os 40 anos seguintes a intervenção. Portanto, os resultados sugerem que o fornecimento de aconselhamento efetivo para um estilo de vida saudável por 5 anos pode levar a benefícios vitalícios.

Portanto, as evidências parecem bastante claras em apontar que o caminho é um só: desencorajar o hábito de fumar e adotar um estilo de vida saudável, aliando portanto, a tudo que já discutimos ao longo do mês: a prática de atividade física, ao controle de peso, a uma alimentação equilibrada, prezando pelo hábito de consumir refeições preparadas em casa, sempre que possível, sem se esquecer de cuidar da saúde mental.

É hora de pensar nos nossos hábitos de vida e rever o que podemos modificar para adotarmos um estilo de vida saudável. E se você perdeu as outras discussões e dicas, é só voltar aos artigos anteriores que explicamos como isso é possível!

 

 

Referências bibliográficas:

 

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Passarelli MN, Newcomb PA, Hampton JM, et al: Cigarette smoking before and after breast cancer diagnosis: Mortality from breast cancer and smokingrelated diseases. J Clin Oncol 34:1315-1322, 2016.

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