Depressão e dieta: até onde vai essa relação?

Evidências recentes têm demonstrado que a adesão a uma alimentação saudável a longo prazo tem sido eficaz e confere proteção contra sintomas depressivos recorrentes.

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Os transtornos mentais e neurológicos representam atualmente a maior carga global de doenças e mais especificamente, a depressão, vêm ganhando destaque nos últimos anos. E não é para menos. Segundo dados do Relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de casos de depressão aumentou 18% entre 2005 e 2015: são 322 milhões de pessoas no mundo todo, sendo a maioria, mulheres. No Brasil, a depressão atinge 11,5 milhões de pessoas, o que representa 5,8% da população.

Embora seja uma doença com múltiplos fatores e que envolve um tratamento multidisciplinar, as pesquisas no campo da nutrição e psiquiatria vêm ganhando destaque, visto que a depressão é uma comorbidade de risco elevado à saúde, como a obesidade.

A nutrição tem sido implicada no comportamento, no humor e no tratamento da doença mental, no entanto, o possível impacto terapêutico das mudanças dietéticas nas doenças mentais existentes ainda é incerto.

O primeiro estudo de intervenção para testar a melhoria da dieta como uma estratégia de tratamento para a depressão foi o estudo SMILE. Conduzido por pesquisadores australianos, investigou por meio de um ensaio clínico randomizado, a eficácia de um programa de melhoria alimentar para o tratamento de episódios de depressão. A intervenção consistiu em suporte nutricional e orientação de uma dieta saudável.

No grupo que recebeu o suporte nutricional, houve melhora significativa dos sintomas em comparação ao grupo que não recebeu orientação nutricional, sendo que o grau de mudança na dieta correlacionou-se com o grau de melhora nos sintomas de depressão, demonstrando assim, que a melhora na dieta pode ser uma estratégia de tratamento eficaz e acessível para o manejo desse transtorno.

Portanto, o estudo SMILES é considerado um importante passo, embora preliminar, no campo da pesquisa em psiquiatria nutricional, uma vez que demonstrou a ideia de que uma dieta saudável pode ser benéfica em pacientes com depressão.

Na semana passada foi publicado pelo European Journal of Nutrition, um artigo que examinou a adesão a longo prazo a três scores de qualidade de dietas, o Índice Alternativo de Alimentação Saudável (AHEI-2010), a dieta DASH (Abordagem Dietética para Hipertensão) e ao score da dieta do Mediterrâneo, e suas associações com o risco de sintomas depressivos recorrentes em 4949 indivíduos, do estudo de Whitehall II, ao longo de 13 anos de acompanhamento.

Os resultados revelaram que os maiores escores dos três tipos de dietas avaliados foram associados com menor risco de sintomas depressivos recorrentes ao longo do período de acompanhamento. Os participantes que mantiveram uma alta pontuação no Índice Alternativo de Alimentação Saudável (AHEI-2010), ou seja, apresentaram uma alimentação mais saudável durante o período, tiveram uma redução de 19% na probabilidade de sintomas depressivos recorrentes em comparação àqueles que mantiveram um baixo escore do AHEI.

E o que significam esses dados?

Que a adesão a longo prazo à uma dieta saudável confere proteção contra sintomas depressivos recorrentes.

Interessante, não?!

No entanto, é sempre importante lembrar que embora os estudos na área de nutrição e psiquiatria estejam avançando e mostrando a importância da alimentação saudável, a mudança na dieta provavelmente não será um tratamento exclusivo para a depressão.

As descobertas recentes destacam a necessidade de cuidados integrados, incorporando tratamentos psicológicos e farmacológicos de primeira linha, juntamente com intervenções de estilo de vida baseadas em evidências, que incluam além da alimentação saudável, a cessação do tabagismo, a prática de atividade física, que em conjunto, podem ter um efeito mais duradouro e eficaz.

Agora, falando em alimentação, você sabe quais são os nutrientes importantes para o tratamento da depressão? Confira a continuação do tema em nosso artigo:

 

Referências bibliográficas:

Recchia, D.; Baghdadli, A. Lassale, C.; Brunner, E.; Verdier, J-M.; Kivimäki, M.; Akbaraly, T. Associations between long‑term adherence to healthy diet and recurrent depressive symptoms in Whitehall II Study.  European Journal of Nutrition, April, 2019.

Berk, M.; Jacka, F. N. Diet and Depression—From Confirmation to Implementation. JAMA March 5, 2019, Volume 321, Number 9.

Jacka, F. N.; O’Neil, A. et al. A randomised controlled trial of dietary improvement for adults with major depression (the ‘SMILES’ trial). BMC Medicine201715:23.

Jacka, F. N.; O’Neil, A. et al. The SMILES trial: an important first step. BMC Medicine (2018) 16:237.

Owen, L. and Corfe, B. (2017) The role of diet and nutrition on mental health and wellbeing. Proceedings of the Nutrition Society, 76 (4). pp. 425-426.

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