Consumo de ovos, colesterol e doenças cardiovasculares: o debate continua.

Estudo norte-americano evidencia que o maior consumo de colesterol ou ovos na dieta foi significativamente associado com maior risco de DCV incidente e mortalidade por todas as causas.

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Não é de hoje que o consumo de ovos é alvo de inúmeras discussões: pode? Não pode? Aumenta o colesterol? Qual a quantidade recomendada? São apenas alguns dos principais questionamentos sobre o tema.

E para alimentar ainda mais esse debate, acabou de sair um artigo publicado no JAMA, em que os pesquisadores buscaram determinar associações entre o colesterol dietético e o consumo de ovos, com a incidência de doenças cardiovasculares e a mortalidade por todas as causas.

Trata-se de um estudo que envolveu 6 coortes norte-americanas, totalizando 29.615 participantes, com média de idade de 51,6 anos. Os foram coletados entre 1985 e 2016, com um acompanhamento médio de 17,5 anos. Os dados da dieta obtidos foram auto referidos e seguiam um protocolo padronizado.

E o que os pesquisadores encontraram?

Segundo o estudo, a cada 300 mg adicionais de colesterol dietético consumido por dia associou-se  significativamente a um maior risco (17%) de DCV incidente e mortalidade por todas as causas (18%).

Cada metade de ovo adicional, consumido por dia, foi significativamente associada a maior risco (6%) de DCV incidente e de mortalidade por todas as causas (8%).

Os dados ainda mostraram que a associação entre o consumo dietético de colesterol (300 mg / dia) e DCV incidente foi 25% mais forte nos participantes com IMC menor que 25 do que em participantes com excesso de peso (IMC ≥ 25 a <30) ou participantes obesos (IMC ≥30).

Ainda, foi observada uma diferença entre os sexos: a associação entre consumo de colesterol dietético e mortalidade por todas as causas foi mais forte nas mulheres (RR ajustado, 1,28 [IC 95%, 1,17-1,41]) do que nos homens (RR ajustado, 1,14 [IC 95%, 1,06-1,22]) (valor P para interação, 0,02) e mais forte em participantes que consumiram uma dieta rica em gordura saturada (RR ajustado, 1,24 [95% IC, 1,13-1,36]) do que nos participantes que não o fizeram (RR ajustado, 1,12 [IC 95%, 1,04-1,21]) (valor P para interação, 0,046).

A associação do consumo de meio ovo/dia e a incidência de DCV também foi mais forte nas mulheres (RR, 1,13 [IC 95%, 1,07-1,20]) do que nos homens (RR ajustado, 1,03 [IC 95%, 0,99-1,08]) (valor P para interação, 0,009)

Acompanhando a mesma tendência, a associação entre o consumo de ovo e mortalidade por todas as causas foi mais forte nas mulheres (RR ajustado, 1,16 [IC 95%, 1,10-1,23]) do que nos homens (RR ajustado, 1,04 [IC 95%, 1,01-1,08]) (valor P para interação, 0,001).

E o que o estudo conclui, portanto?

Segundo os pesquisadores, os dados mostraram que entre os adultos norte-americanos, o maior consumo de colesterol ou ovos na dieta foi significativamente associado com maior risco de DCV incidente e mortalidade por todas as causas.

Bom, agora uma ressalva importante: não podemos generalizar um artigo, como sempre! Primeiro porque o próprio estudo aponta muito bem suas limitações: tratam-se dados auto referidos, portanto, o erro de medida deve ser considerado nesses casos; o estudo contou com apenas uma medição única do consumo de ovo e colesterol dietético; todas as coortes usaram diferentes ferramentas de avaliação dietética, exceto 2 coortes de Framingham; os dados não estavam disponíveis para investigar os subtipos de doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca, bem como, mortalidade por causas específicas, como mortalidade por câncer; e, como muito bem pontuam os autores, generalizar os resultados para populações não americanas requer cautela devido a diferentes ambientes de nutrição, alimentos e epidemiologia das doenças; e, por último, mas não menos importante, trata-se de um estudo de dados observacionais, o que não permite estabelecer causalidade.

Além disso, no Brasil, a I Diretriz sobre o consumo de Gorduras e Saúde Cardiovascular pressupões que as recomendações atuais restringem o consumo de ovo e limitam o consumo de colesterol em até 300 mg ao dia, assim como,  a V Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose incentiva a ingestão de colesterol < 300 mg/d para pacientes no geral, sendo que para indivíduos com dislipidemia o consumo deve ser  < 200 mg/d. No entanto, não limitam a quantidade de ovos a ser ingerido por dia, apenas consideram que  um simples ovo contém de 50 a 250 mg de colesterol, dependendo do seu tamanho.

Obviamente, analisar alimentos isolados sem considerar a necessidade de cada individuo, seu perfil, nível de atividade física e alimentação em geral, é ser bastante reducionista. Mas, o que já se sabe é que dietas com alta densidade nutricional, como as dietas plant based diet e do mediterrâneo (que sempre discutimos por aqui, confira nossos posts) que reduzem o consumo de alimentos de origem animal, ricas em gordura saturada, apresentam evidências científicas importantes para o controle do colesterol em humanos.

Portanto, vamos olhar além dos dados. Vamos olhar para cada indivíduo e entender a alimentação como um todo, com os diferentes grupos de alimentos e não focar apenas em um alimento específico. É sempre bom lembrar isso!

 

Referências bibliográficas:

Zhong, V. W.;  Van Horn, L.; et al. Associations of Dietary Cholesterol or Egg Consumption With Incident Cardiovascular Disease and Mortality. JAMA. 2019;321(11):1081-1095. doi:10.1001/jama.2019.1572.

Santos, H. O. Atualização do Impacto do Consumo de Ovos de Galinha Inteiros no Perfil Lipídico: Até que Ponto são Impactantes? Arq Bras Cardiol. 2018; 110(6):585-587.

Santos RD, Gagliardi ACM, Xavier HT, Magnoni CD, Cassani R, Lottenberg AMP, Casella Filho A, Araújo DB, Cesena FY, Alves RJ, Fenelon G, Nishioka SAD, Faludi AA, Geloneze B, Scherr C, Kovacs C, Tomazzela C, Carla C, Barrera-Arellano D, Cintra D, Quintão E, Nakandakare ER, Fonseca FAH, Pimentel I, Santos JE, Bertolami MC, Rogero M, Izar MCO, Nakasato M, Damasceno NRT, Maranhão R, Cassani RSL, Perim R, Ramos S. I Diretriz sobre o Consumo de Gorduras e Saúde Cardiovascular. Volume 100, N° 1, Suplemento 3, Janeiro 2013.

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