1000 dias: a janela de oportunidades da saúde

A suplementação materna com ômega-3 melhorou o desenvolvimento psicomotor e visual na infância e a razão ômega 6: ômega 3 durante a gravidez pode modular o risco de desenvolver sintomas de TDAH a longo prazo.

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Você já ouviu falar sobre os primeiros 1000 dias?

Esse conceito tem sido amplamente estudado e, embora recente, têm ganhado cada vez mais destaque na comunidade científica. Historicamente, surgiu em  2008, com uma publicação da revista The Lancet sobre desnutrição materna e infantil, apontando a necessidade de maior atenção por parte do setor de saúde para o período que compreende os 270 dias de gestação e os dois primeiros anos de vida da criança, definido como os primeiros 1000 dias.

Segundo essa teoria, o desenvolvimento de um estado nutricional saudável tem seu início muito cedo, abrangendo os hábitos alimentares maternos, o tipo de amamentação e as principais fases da nutrição ao longo do crescimento. Portanto, esse período é fundamental para o desenvolvimento de alterações endócrinas, metabólicas, imunológicas, representando assim, a base fisiológica e genética para explicar uma série de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) na vida futura, tais como, obesidade, diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares, além de impactar o desenvolvimento neurocognitivo do bebê.

Mas, esse período é visto também como uma janela de oportunidades. Isso porque é possível ocorrer melhoras na saúde dos indivíduos, a partir da realização de intervenções necessárias e uma efetiva promoção da saúde nessa fase da vida, podendo reduzir o risco de desnutrição, deficiência de nutrientes e minerais e favorecer o desenvolvimento ótimo do bebê.

E para favorecer essa janela de oportunidades, alguns alimentos funcionais e compostos bioativos são fundamentais neste período: o ácido fólico, a vitamina D, o ácido docosaexaenoico (DHA) e os probióticos.

Hoje, vamos falar aqui especificamente sobre o ômega 3. Em uma revisão sistemática e meta análise publicada pelo The Journal of Nutrition, em que foram incluídos 5541 participantes, os pesquisadores investigaram os efeitos da suplementação de ômega-3 na função cognitiva e visual de crianças e identificaram que a suplementação de ômega-3 melhorou o desenvolvimento psicomotor e visual da infância, sem efeitos sobre o QI global tardio.

Um outro estudo, publicado neste mês pelo The Journal of Pediatrics, avaliou se uma maior razão de ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa ômega-6: ômega-3 no plasma do cordão umbilical estava associado a mais sintomas de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) aos 4 e 7 anos de idade em uma coorte de nascimentos na Espanha.

Os resultados mostraram que uma maior razão de ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa ômega-6: ômega-3 no plasma do cordão umbilical foi associada a um maior índice de TDAH aos 7 anos de idade. Portanto, os pesquisadores concluíram que uma razão elevada de ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa ômega-3: ômega-3 pré-natal precedeu o aparecimento de sintomas de TDAH durante a infância, sugerindo assim, que a dieta materna durante a gravidez pode modular o risco de desenvolver sintomas de TDAH a longo prazo.

Claramente, não pretendemos esgotar aqui o assunto, até mesmo porque, ainda existem muitas lacunas a serem descobertas e elucidadas pela ciência. Mas, sobretudo, é importante inserir esta discussão além do meio científico e trabalhar a importância da alimentação saudável, sobretudo com as gestantes e durante a introdução alimentar e primeira infância, incluindo os alimentos funcionais e compostos bioativos essenciais para este período.

 

 

 

Referências bibliográficas:

 

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