Vitamina D e gestação: estudo francês

A insuficiência de vitamina D é altamente prevalente no início da gravidez e no sangue do cordão umbilical nas mulheres francesas.

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Continuando nossa discussão sobre vitamina D, já apresentamos artigos cujos temas se relacionavam com doenças crônicas, tais como obesidade, diabetes mellitus e síndrome metabólica. Hoje, trazemos um estudo que aborda o papel dessa vitamina no período gestacional.

O artigo é um estudo prospectivo, de coorte francesa, publicado na Clinical Nutrition, que determinou o status da vitamina D durante o primeiro e o terceiro trimestres da gravidez (T1, T3) e no sangue do cordão umbilical (CB), por meio de avaliação das concentrações séricas de 25 (OH) – vitamina D (25 (OH) D) nestes períodos.

No estudo, foram definidos como deficiência, insuficiência, inadequação e suficiência, as concentrações séricas de 25(OH)D <10 ng/mL, <20 ng/mL, <30 ng/mL, e 30 ng/mL, respectivamente. A vitamina D (100.000 UI de colecalciferol) foi prescrita a todas as mulheres no sétimo mês de gestação como um procedimento de rotina, de acordo com as diretrizes francesas.

No total, foram analisadas 2803 mulheres, com média de idade 31,5 anos ± DP 5,0 anos. Os principais resultados indicaram que 88,6% das gestantes receberam suplementação durante o sétimo mês de gestação.  Em T1, T3 e CB, as concentrações médias de 25 (OH) D foram 21,9 ± 10,4, 31,8 ± 11,5 e 17,0 ± 7,2 ng/mL, respectivamente, e 25 (OH) D foi <20 ng/mL em 46,5%, 14,0% e 68,5%, respectivamente. As mulheres que receberam suplementação de colecalciferol no mês 7 apresentaram 25 (OH) D em T3 mais elevadas que as não suplementadas (32,5 ± 11,4 versus 25,8 ± 11,4 ng / mL, p <0,001) e 25 (OH) D no CB ligeiramente maior (17,2 ± 7,2 versus 15,5 ± 7,1 ng/mL, p = 0,004).

Portanto, os autores observaram um claro aumento nas concentrações séricas de 25 (OH) D entre o primeiro e o terceiro trimestre, embora esses dados devem ser interpretados levando-se em conta a suplementação de vitamina D recomendada na França. Também foi observada uma diminuição dramática nos níveis de 25 (OH) D entre o terceiro trimestre e a coleta de amostras de sangue do cordão. Para os autores, esse achado sugere que a diminuição no soro de 25 (OH) D observada entre o segundo ou terceiro trimestres e o sangue do cordão umbilical pode ser devida a uma rápida redução nas concentrações séricas de 25 (OH) D entre a coleta e o parto.

Segundo os autores, as possíveis explicações para esta diminuição rápida nos níveis de 25 (OH) D durante as últimas 4 semanas de gravidez (atraso médio entre o terceiro trimestre e o sangue do cordão umbilical) pode ser devido a ausência de suplementação adicional que poderia ser realizada por meio de atividade ao ar livre e exposição ao sol, juntamente com um aumento na massa de gordura no final da gravidez. Outra explicação dada pelos autores deve-se a rápida diminuição das concentrações séricas de 25 (OH) D após a administração única de 100.000 UI de vitamina D3, bem como, outra hipótese para explicar a discrepância entre os níveis de 25 (OH) D em mães durante o segundo ou terceiro trimestres e em recém-nascidos poderia ser que 25-hidroxivitamina D3, uma isoforma não detectada pelos imunoensaios atuais, pode estar presente em altas concentrações no sangue do cordão, embora outros estudos que se dedicaram a avaliar essa hipótese não a sustentaram.

Nesse sentido, os autores concluem que a insuficiência de vitamina D é altamente prevalente no início da gravidez e no sangue do cordão umbilical nas mulheres francesas estudadas, sendo que a suplementação com colecalciferol 100.000 UI durante o sétimo mês de gestação é insuficiente para prevenir a insuficiência e deficiência de vitamina D em recém-nascidos e, portanto, deve sempre se atentar a este controle.

Apesar de se tratar de um estudo com mulheres francesas, cuja localização geográfica e incidência solar é diferente do Brasil, dada a importância dessa vitamina para a saúde do bebê, é fundamental que medidas preventivas de deficiências sejam sempre discutidas.

A gestação é considerada um período crítico para deficiência de vitamina D pois as gestantes são orientadas a não se exporem ao sol, ao mesmo tempo que baixas doses de vitamina D associa-se a diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, baixo peso ao nascer e outros desfechos tardios como massa óssea insuficiente e aumento dos marcadores de risco cardiovascular em idade escolar. A recomendação diária de vitamina D é de 600 – 1000 UI para gestantes entre 14 e 18 anos de idade e de 1500 a 2000 UI para gestantes maiores de 18 anos.

Recomendação SBEM: na gestante com risco para deficiência, o tratamento traz benefícios para a mãe (Evidência B) e para o recém-nascido (Evidência A). Doses diárias de vitamina D estão recomendadas durante a gestação e se devem evitar doses maiores semanais ou mensais, pois a produção placentária de calcitriol é substrato-dependente (Evidência C).

 

Fonte: SBEM, 2014.

 

 

Referências bibliográficas

Courbebaisse M, et al., Vitamin D status during pregnancy and in cord blood in a large prospective French cohort, Clinical Nutrition (2018).

Maeda, S. S.; Borba, V. Z. C.; Camargo, M. B. R.; Silva, D. M. W.; Borges, J. L. C.; Bandeira, F.; Lazaretti-Castro, M.  Recomendações da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) para o diagnóstico e tratamento da hipovitaminose D. Arq Bras Endocrinol Metab. 2014;58/5.

 

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