Risco de Transtornos Psiquiátricos, obesidade e diabetes mellitus: qual a relação?

O diabetes mellitus pré gestacional materno combinado com obesidade materna grave, aumenta significativamente o risco de transtornos psiquiátricos e o desenvolvimento neurológico das crianças.

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O estado nutricional da mãe no período pré-gestacional, bem como, o ganho de peso ao longo da gestação possui uma estreita relação com alguns desfechos já bem estabelecidos na literatura, tais como: hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia, Síndrome de Hellp, diabetes gestacional, bem como, implicações para o bebê, como aumento da probabilidade do desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, principalmente, obesidade.

No entanto, estudos que contemplem a exposição pré-natal a distúrbios metabólicos e desfechos relacionados ao comprometimento do desenvolvimento neurológico dos bebês, ainda são pouco explorados.

Em uma pesquisa desenvolvida a partir de dados de registros de nascidos vivos na Finlândia, obtidos entre os anos de 2004 e 2014, compreendendo uma amostra de 649.043 registros, os pesquisadores avaliaram o efeito conjunto da obesidade materna e do diabetes sobre o risco de desordens psiquiátricas e desenvolvimento neurológicos dos filhos.

Os pesquisadores encontraram que entre as mães que não relataram ter diabetes, as mães que eram gravemente obesas apresentaram risco aumentado de 67% a 88% de ter um filho com desordens de desenvolvimento neurológico leves, déficit de atenção / hiperatividade ou transtorno de conduta e transtornos psicóticos, de humor e relacionados ao estresse ​​em comparação com mães com IMC normal. O diabetes mellitus pré-gestacional implicou em um aumento do risco adicional para todos os grupos de diagnósticos psiquiátricos com início na infância ou adolescência em mães com obesidade grave. Efeitos marcantes foram encontrados para o transtorno do espectro autista, transtorno de déficit de atenção / hiperatividade e transtorno de conduta e transtornos mistos de conduta e emoções. Especificamente, os pesquisadores identificaram que as mães com diabetes mellitus pré gestacional e obesidade severa tinham um risco 6 vezes maior de dar à luz uma criança com síndrome do espectro autista, em comparação com mães não diabéticas com peso normal.

Portanto, a principal conclusão dos autores é que o diabetes mellitus pré gestacional materno combinado com obesidade materna grave, aumenta significativamente o risco de transtornos psiquiátricos e desenvolvimento neurológico das crianças analisadas.

Apesar da pesquisa ser bastante robusta, pelo próprio delineamento do estudo, prospectivo de coorte populacional, apresenta limitações importantes: enquanto a coorte do primeiro ano avaliado pode ser acompanhada por um período mais longo, a coorte do último ano foi acompanhada por um período curto, o que pode gerar alteração nos dados, bem como, a avaliação do IMC foi avaliada em apenas um momento ao longo da gestação, não avaliando portanto, a alteração do IMC no período gestacional e suas implicações. Além disso, os dados sobre diabetes mellitus gestacional foram obtidos a partir de informações sobre o uso de insulina, o que também pode induzir a um viés no estudo, bem como, não foram considerados a predisposição genética, como dados para condições psiquiátricas ambulatoriais maternas e paternas, uma vez que esses dados não estavam disponíveis.

Apesar do risco aumentado, não significa que a gestante portadora de diabetes irá apresentar complicações durante a gravidez. A Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda que a gravidez seja programada para evitar más-formações nos bebês, já que as mesmas ocorrem nas oito primeiras semanas de vida uterina quando, muitas vezes, as gestantes ainda nem sabem sobre a gravidez. Com o controle da doença e a programação adequada é possível reduzir as chances de ocorrerem complicações.

Além disso, já discutimos aqui também, especificamente sobre o papel da vitamina D entre crianças, cujos baixos níveis apresentaram estar significativamente associado à probabilidade de Transtorno de déficit de atenção e Hiperatividade (TDAH) e, concentrações abaixo do recomendado no período perinatal estão associadas a um maior risco de TDAH na vida tardia.

Portanto, estes dois estudos demonstram um papel importante da nutrição no período pré-gestacional e gestacional, associado as desordens neurológicas entre as crianças, reforçando a necessidade do acompanhamento nutricional adequado neste período da vida, como forma de minimizar os riscos para o desenvolvimento de doenças.

 

 

Referências bibliográficas:

Kong L, Norstedt G, Schalling M, et al. The Risk of Offspring Psychiatric Disorders in the Setting of Maternal Obesity and Diabetes. Pediatrics. 2018;142(3):e20180776.

Zajdenverg, L – Diabetes e gravidez. – Sociedade Brasileira de Diabetes, 2011. Disponível em: https://www.diabetes.org.br/publico/colunistas/41-dra-lenita-zajdenverg/201-diabetes-e-gravidez

 

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