Pesquisa Epidemiológica Nutricional: cenário atual e perspectivas futuras

A combinação de diferentes abordagens de pesquisa, incluindo estudos epidemiológicos nutricionais cuidadosamente conduzidos, forneceu novos conhecimentos sobre a importante influência da dieta na saúde humana, e esse conhecimento foi traduzido para diretrizes e políticas que melhoraram a longevidade e o bem-estar da população.

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A pesquisa epidemiológica nutricional constitui-se em uma das áreas mais importantes da nutrição, uma vez que além de avaliar o cenário atual da nutrição e todos os temas concernentes, fornece subsídios para políticas públicas relacionadas a alimentação e nutrição.

Recentemente, foi publicado um ponto de vista na revista JAMA, abordando especificamente o cenário atual e as perspectivas futuras das pesquisas epidemiológicas nutricionais.

Segundo os autores, o último meio século de pesquisa em nutrição expandiu-se para além da pesquisa nutricional tradicional baseada principalmente nas bases bioquímicas e em modelos animais, para um modelo baseado na experiência da epidemiologia em outros campos da saúde pública, iniciando a prática de fornecer novas informações importantes e teve efeitos substanciais sobre o padrão alimentar global.

Um bom exemplo disso, segundo apontam os autores consiste na política de efetivação da epidemiologia nutricional com a redução substancial de ácidos graxos trans de óleos parcialmente hidrogenados, que resultou da combinação de estudos epidemiológicos demonstrando uma associação entre gordura trans e doença cardíaca, juntamente com evidências de estudos controlados de alimentação mostrando efeitos adversos nos lipídios sanguíneos.

Nesse sentido, estudos epidemiológicos prospectivos de grande porte e bem conduzidos têm sido cruciais para a atualização das diretrizes dietéticas.

No entanto, segundo os autores, a epidemiologia nutricional tem sido amplamente criticada pela avaliação dietética imprecisa e pela confiança no desenho do estudo observacional. Diante disso, para os mesmos, o avanço nas pesquisas vem reforçando que os instrumentos utilizados, tais como os questionários de frequência alimentar funcionam suficientemente bem para detectar associações importantes se elas realmente existirem, ao mesmo tempo em que métodos estatísticos foram desenvolvidos para dar conta de erros sistemáticos. Outro ponto levantado, refere-se ao controle de fatores de confusão que está no cerne de estudos epidemiológicos robustos e pode ser bem feito com o planejamento e análise cuidadosos.  Ainda, para os autores, muitas vezes, em saúde pública e em muitas outras áreas, nenhum estudo isolado pode fornecer uma resposta definitiva e nenhum projeto de estudo ocorre sem limitações. Assim, as conclusões e as decisões políticas precisam avaliar e quantificar as fontes de vieses e usar a totalidade das melhores evidências disponíveis, reconhecendo que se trata de um processo interativo.

Muitas novas oportunidades para pesquisa epidemiológica nutricional foram criadas por avanços notáveis ​​em tecnologias ômicas, incluindo genômica, metabolômica e proteômica, e no estudo do microbioma humano. A integração dessas tecnologias na epidemiologia nutricional e a adoção de uma abordagem da “epidemiologia sistêmica” podem ajudar a compreender as variáveis individuais, respostas secundarias, identificar populações de alto risco para direcionar a intervenção. No entanto, da mesma forma, todas essas tecnologias têm fontes de erro e limitações.

Como perspectivas futuras, os autores apontam que na próxima década, a pesquisa nutricional precisará abordar desafios sociais e globais. Primeiro, o sistema alimentar está evoluindo rapidamente, e existem lacunas na qualidade da dieta entre os vários grupos populacionais. Em segundo lugar, o aumento contínuo das taxas de prevalência e incidência de obesidade está afetando a expectativa de vida e pode reverter os ganhos da saúde alcançados nos últimos 50 anos. Em terceiro lugar, os autores apontam que em países de baixa e média renda, as transições nutricional e epidemiológica estão ocorrendo em um ritmo sem precedentes (em um ritmo mais acelerado a exemplos de países europeus, por exemplo), desnutrição e deficiências nutricionais continuam coexistindo como problemas nutricionais. Mais pesquisas são necessárias para abordar o duplo ônus da desnutrição e super nutrição nessas populações. Em quarto lugar, os sistemas alimentares globais estão tendo uma grande influência sobre o meio ambiente, tais como degradação e alterações climáticas, contribuindo para cerca de um quarto da produção de gases do efeito estufa. Assim, todos os aspectos da produção de alimentos e o consumo precisa ser avaliado por meio da saúde e de aspectos ambientais.

Por último, os autores pontuam que nas últimas décadas, a combinação de diferentes abordagens de pesquisa, incluindo estudos epidemiológicos nutricionais cuidadosamente conduzidos, forneceu novos conhecimentos sobre a importante influência da dieta na saúde humana, e esse conhecimento foi traduzido para diretrizes e políticas que melhoraram a longevidade e o bem-estar da população.  No entanto, atentam que o potencial para novas melhorias na saúde através de uma melhor nutrição continua como grande desafio: uma agenda de pesquisa que incorpore uma abordagem multidisciplinar aplicada ao longo do ciclo de vida, que aproveite as novas tecnologias, e que lide com novos desafios, provavelmente será mais eficaz para garantir dietas saudáveis e sustentáveis nos Estados Unidos e no mundo.

Por isso, nós aqui do portal vamos ficar atentos as novas discussões no âmbito da epidemiologia nutricional, discutindo sempre temas atuais e importantes para o contexto da saúde pública.

 

 

Referências bibliográficas:

Hu, F. B., & Willett, W. C. (2018). Current and Future Landscape of Nutritional Epidemiologic Research. JAMA.

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