Micronutrientes e tireoide

Resultados dos estudos observacionais sugeriram que as concentrações de selênio, zinco e ferro estão positivamente associadas ao status de iodo, por outro lado os dados dos estudos de intervenção não confirmaram essa relação.

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A tireoide tem sido reconhecida pelo importante papel na manutenção da saúde humana por meio da regulação do crescimento e do metabolismo. Os hormônios tireoidianos sintetizados, a tiroxina (T4) e triiodotironina (T3), são importantes para o cérebro e para o desenvolvimento do sistema neurológico. O metabolismo do hormônio tireoidiano é dependente de muitas proteínas e enzimas, e a expressão e função dessas enzimas é influenciada pela disponibilidade de iodo. Estudos recentes têm se dedicado a investigar a relação entre os micronutrientes, tais como as vitaminas e minerais, nas concentrações dos hormônios tireoidianos.

Uma recente revisão sistemática publicada na Nutrition Reviews investigou o efeito da suplementação de micronutrientes nutricional estado nutricional de iodo e nas concentrações dos hormônios tireoidianos.  Foram incluídos na revisão um total de 57 estudos (20 estudos de intervenção, incluindo 27.726 indivíduos e 37 estudos observacionais, incluindo 4.136 indivíduos). Os micronutrientes considerados foram: selênio, zinco, ferro, cobre, vitamina A e molibdênio.

Os resultados encontrados foram divergentes de acordo com o desenho dos estudos: enquanto os resultados dos estudos observacionais sugeriram que as concentrações de selênio, zinco e ferro estão positivamente associadas ao status de iodo (medido pela concentração de iodo urinário), os dados dos estudos de intervenção (ensaios clínicos randomizados e controlados) não confirmaram essa relação.

Segundo os autores, a interação do iodo com o selênio, ferro e zinco é bem reconhecida, pois o selênio e o zinco são necessários para a conversão do hormônio T4 no hormônio T3 metabolicamente ativo, enquanto o ferro é necessário para os estágios iniciais da síntese do hormônio tireoidiano.

Embora haja evidências de que a vitamina A e o cobre tenham papel na função tireoidiana, a falta de estudos observacionais adequados dificultou a obtenção de conclusões significativas sobre as associações entre outros micronutrientes (vitamina A, cobre e molibdênio) e o estado de iodo; portanto, os autores sugerem que mais pesquisas nessa área são necessárias para estabelecer relações precisas e seguras.

Para os autores, há evidências convincentes de que os níveis de selênio, zinco e ferro estão positivamente associados ao estado de iodo. No entanto, conclusões sobre o efeito da suplementação com micronutrientes nas concentrações de iodo e hormônios da tireoide não foram possíveis, dada a falta de estudos e também, pela heterogeneidade nas populações estudadas.

Em relação aos desenhos dos estudos, mais ensaios clínicos randomizados controlados, em populações bem definidas, são necessários para investigar e estabelecer conclusões mais assertivas sobre o efeito da suplementação com micronutrientes no estado de iodo e na função tireoidiana.

Contudo, ressaltam que ao considerar as interações entre o iodo e outros micronutrientes, uma abordagem integrada para erradicar a deficiência de iodo, ao mesmo tempo em que lida com deficiências coexistentes de micronutrientes, pode ser mais vantajosa do que tratar apenas a deficiência de iodo.

Os distúrbios por deficiência de iodo (DDI) incluem o cretinismo em crianças (retardo mental grave e irreversível), anomalias congênitas, o bócio (hipertrofia da tireoide), aumento no risco de aborto, baixo peso ao nascer, mortalidade materna e natimortos.

No Brasil, existe o Programa de Combate aos Distúrbios por Deficiência de Iodo que erradicou o bócio endêmico no país e, por isso, é muito elogiado pelos órgãos internacionais. Umas das ações do programa é a iodação universal do sal de cozinha e a fiscalização das industrias salineiras.

A RDC No 23 de 24 de abril de 2013 estabelece que deve ser adotada a proporção de 3:1 entre o limite máximo e mínimo de iodo frente às características do beneficiamento do sal e somente considera próprio para consumo humano o sal que contém de 15 a 45mg de iodo/kg de sal.

Alimentos fonte de iodo

Alimento  µg de iodo Adequação de acordo com a recomendação*
1g de sal iodado 10 a 40 10, 5% a 42,1%
100g de atum, cavala e ostra 50 a 60 52,6% a 63,2%
100g de camarão 130 136,8%
100 g de bacalhau fresco 170 178,9%
100g de sardinha e mexilhão 95 a 100 100 a 105,3%

Fonte: Lopes et al., 2012

*RDA para indivíduos adultos e idosos de ambos os sexos (95 µg)

 

 

Referências bibliográficas:

Ministério da Saúde – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da RDC No 23 de 24 de abril de 2013 – Dispõe sobre o teor de iodo no sal destinado ao consumo humano e dá outras providências. Brasil, 2013.

Ministério da Saúde – Departamento de atenção básica (DAB). Prevenção e Controle de Agravos nutricionais: Deficiência de Iodo. Disponível em: http://dab.saude.gov.br/portaldab/ape_pcan.php?conteudo=deficiencia_iodo

Lopes MS, et al. Iodo e tiróide: O que o clínico deve saber, Acta Med Port 2012 May-Jun; 25(3):174-178

O’Kane, S. M., Mulhern, M. S., Pourshahidi, L. K., Strain, J. J., & Yeates, A. J. Micronutrients, iodine status and concentrations of thyroid hormones: a systematic review. Nutrition Reviews, 76(6), 418–431 (2018).

Pesquisa Nacional para Avaliação do Impacto da Iodação do Sal (PNAISAL). Universidade Federal de Pelotas e Universidade Federal do Rio Grande. Pelotas, 2016.

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