Dieta cetogênica, microbiota intestinal e epilepsia: novas evidências.

A pesquisa aponta para um papel fundamental do microbioma intestinal na mediação dos efeitos da dieta cetogênica.

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Hoje trouxemos para discussão, um editorial publicado no The Journal of the American Medical Association (JAMA) que aborda os resultados de um artigo publicado na Cell, apontando o papel da microbiota intestinal na mediação dos efeitos da dieta cetogênica em pacientes com epilepsia.

A dieta cetogência, caracterizada por baixo teor de carboidratos e elevado percentual de gordura é considerada um tratamento eficaz para muitos pacientes com epilepsia que não respondem aos medicamentos anticonvulsivantes existentes, mas os mecanismos detalhados por trás dos efeitos benéficos da dieta sobre a atividade cerebral e o comportamento ainda não estão totalmente esclarecidos.

Os pesquisadores avaliaram a eficácia da dieta cetogênica usando 2 tipos de camundongos: ratos criados livres de germes em um ambiente de laboratório estéril e ratos tratados com antibióticos para esgotar os micróbios do intestino e por meio da utilização de vírus, induziram convulsões parciais complexas.

Os ratos convencionais na dieta cetogênica tiveram significativamente menos convulsões do que os ratos convencionais em uma dieta controle. Além disso, foi demonstrado que a muciniphila e os parabacteroides eram necessários em conjunto para o efeito anticonvulsivo da dieta cetogênica. Uma combinação destes dois táxons bacterianos restaurou a proteção contra convulsões em camundongos tratados com antibióticos alimentados com a dieta cetogênica.

Em contrapartida, a colonização com akkermansia muciniphila e parabacteroides distasonis não protegeu contra convulsões, e não houve aumento significativo no limiar de convulsão após o enriquecimento de akkermansia muciniphila ou parabacteroides sozinho. Da mesma forma, a colonização conjunta de akkermansia muciniphila e Parabacteroides, mas não sozinhos, protegiam contra convulsões em camundongos sem germes, alimentados com a dieta cetogênica. Portanto, de forma geral, o estudo revela que a microbiota intestinal modula o metabolismo do hospedeiro e a suscetibilidade a convulsões em camundongos.

Segundo o depoimento de um dos pesquisadores no JAMA, em ambos os camundongos (sem germes e tratados com antibióticos), a pesquisa aponta que a dieta cetogênica não era mais eficaz na proteção contra convulsões, o que sugere que a microbiota intestinal é necessária para a dieta proteger contra convulsões.

Os pesquisadores também descobriram os detalhes por trás dos efeitos da dieta cetogênica na microbiota intestinal em camundongos convencionais. A dieta aumentou substancialmente a abundância relativa de Akkermansia muciniphila, de 2,8% para 36,3% em 4 dias e 14 dias de tratamento dietético. Parabacteróides, Sutterella e Erysipelotrichaceae também foram significativamente aumentados, enquanto que as bactérias Allobaculum, Bifidobacterium e Desulfovibrio foram menores em ratos alimentados com dieta cetogênica em comparação com camundongos alimentados com uma dieta controle.

Portanto, a pesquisa aponta para um papel fundamental do microbioma intestinal na mediação dos efeitos da dieta cetogênica e segundo o depoimento de um dos pesquisadores para o JAMA, o estudo avança na compreensão de como a microbiota intestinal afeta o funcionamento e o comportamento do cérebro, sendo o primeiro a revelar um papel causal da microbiota na mediação dos efeitos anticonvulsivos da dieta cetogênica em camundongos, e revela as vias moleculares e celulares que podem estar envolvidas, por meio das quais interações entre bactérias selecionadas regulam metabólitos periféricos que impactam o hipocampo (Hsiao, JAMA, 2018).

No entanto, os pesquisadores salientam a importância de pesquisas adicionais serem necessárias para determinar os efeitos similares em aminoácidos e metabólitos cerebrais, em humanos, a partir de uma dieta cetogênica.

 

 

Referências bibliográficas:

Hampton, T. Gut Microbes May Account for the Anti-Seizure Effects of the Ketogenic Diet. JAMA. 2018;320(13):1307.

Olson, C. A.; Vuong, H. E.; Yano, J. M.; Liang, Q. Y.; Nusbaum, D. J.; Hsiao, E. Y.  The Gut Microbiota Mediates the Anti-Seizure Effects of the Ketogenic Diet. Cell, v. 173, issue 7, 2018.

PRUDENCIO, M. B., LIMA, P. de A., FREITAS, M. C. P. de, CARTOLANO, F. de C., MURAKAMI, D. K., & DAMASCENO, N. R. T. (2017). Ketogenic food pyramid for patients with refractory epilepsy: From theory to clinical practice. Revista de Nutrição, 30(1), 99–108. doi:10.1590/1678-98652017000100010

 

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