Consumo seguro de álcool: quais são as evidências?

Estudo publicado no The Lancet evidenciou que não existe dose segura para o consumo de álcool. Na faixa etária dos 15 aos 49 anos, o uso do álcool foi o principal fator de risco de morte, no ano de 2016.

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O consumo de álcool e os efeitos na saúde têm sido alvo de grandes discussões nos últimos anos. Se por um lado, o consumo de álcool tem sido relacionado a efeitos deletérios à saúde humana, tais como o desenvolvimento de esteatose hepática alcoólica e carências nutricionais, por outro, o consumo de determinados tipos de bebida que também contém álcool, como o vinho, tem sido apontado por ter efeitos protetores à saúde cardiovascular, quando ingeridos em doses adequadas. O que explica esses benefícios é a presença de compostos bioativos presentes nesse tipo de bebida, como o resveratrol e os taninos.

Considerando esse cenário, O The Lancet, jornal de importância para área de saúde, publicou uma revisão sistemática e meta-análise. O estudo incluiu 694 fontes de dados, de 195 regiões diferentes, no período de 1990 a 2016, incluindo homens e mulheres de 15 a 95 anos. Foram feitas estimativas da prevalência de consumo atual, abstenção, a distribuição do consumo de álcool entre bebedores atuais em bebidas padrão (definido como 10 g de álcool etílico puro), além de mortes e tempo de vida ajustado por incapacidade atribuíveis ao álcool.

Entre os principais resultados apontados, destaca-se que o consumo de álcool foi o sétimo fator de risco, tanto para mortalidade quanto para tempo de vida ajustado por incapacidade, sendo maior em homens do que em mulheres (6,8% vs. 2,2%, dos óbitos padronizados). Os dados apresentaram variações de acordo com a análise por idade. Na faixa etária dos 15 aos 49 anos, o uso do álcool foi o principal fator de risco de morte no mundo no ano de 2016, também com percentual mais elevado entre os homens comparativamente as mulheres (12,2% vs. 3,8%, respectivamente); na mesma população, a análise do tempo de vida ajustado por incapacidade também apresentou a mesma tendência (2,3% entre as mulheres e 8,9% entre os homens). Entre a população com 50 anos ou mais, o câncer representou uma grande proporção do total de mortes (câncer de esôfago, fígado, laringe, cólon e reto, mama, cavidade oral e faringe), cujas causas podem estar relacionadas ao álcool, sendo o maior percentual entre mulheres, comparativamente aos homens (27,1% vs. 18,9%). Em relação ao nível de consumo de álcool necessário para minimizar danos à saúde, esse foi identificado como sendo de zero drinques por semana.

Nesse sentido, o resultado do estudo indica que o consumo do álcool causa perda substancial de saúde, uma vez que o risco de mortalidade por todas as causas aumenta de acordo com o aumento dos níveis de consumo, além disso, foi demonstrado que o nível seguro é zero, o que não vai de encontro com a maioria das diretrizes de saúde, que adotam benefícios associados ao consumo de até dois drinques por dia.

A mensagem final dos autores é que a partir desses resultados, as políticas de sejam revistas ao redor do mundo, adotando medidas para desestimular o consumo de bebida alcoólica. No entanto, é importante ressaltar que existem diferentes estudos na literatura apontando seus benefícios (no caso de bebidas específicas, como o vinho) em doses adequadas. Por isso, moderação é sempre o melhor caminho.

Em 2018, a Organização Mundial da Saúde divulgou o relatório World Health Statistics 2018, evidenciando que o consumo mundial médio de álcool, em 2016, por pessoas com mais de 15 anos, foi de 6,4L. No Brasil, essa quantidade foi de 7,8L por pessoa.

Dados do Vigitel realizado em 2017, mostram que o consumo abusivo* de álcool em indivíduos com mais de 18 anos é de 19,1%, sendo mais frequente em homens (27,1%) do que em mulheres (12,2%).

*Consumo abusivo: Mulheres: 4 ou mais doses; Homens: 5 ou mais doses de bebida alcoólica, em uma única ocasião, pelo menos uma vez nos últimos 30 dias.

Uma dose de bebida alcoólica corresponde a uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de cachaça, whisky ou qualquer outra bebida alcoólica destilada.

Distribuição do consumo per capta de litro de álcool, 2016:

Fonte: Vinepair através dos dados da OMS, 2018.

 

 

Referências bibliográficas

GBD 2016 Alcohol Collaborators. Alcohol use and burden for 195 countries and territories, 1990–2016: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2016. The Lancet. August 23, 2018.

Vigitel Brasil 2017: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2017 / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde. – Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

World health statistics 2018: monitoring health for the SDGs, sustainable development goals. Geneva: World Health Organization; 2018. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.

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