Cereja ácida e microbiota intestinal: qual a relação?

A microbiota intestinal de indivíduos que consomem uma dieta mais ocidental podem ter menor capacidade de metabolizar polifenóis, reduzindo assim a biodisponibilidade e quaisquer benefícios potenciais para a saúde.

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Muito se tem discutido sobre os benefícios dos alimentos funcionais, principalmente relacionados ao potencial antioxidante que muitos apresentam, especialmente decorrentes de polifenóis, como os chás (chá verde, chá preto), bem como as frutas vermelhas e os alimentos roxos (falamos sobre o tema para a revista Vogue, confira no nosso post do instagram).

Neste contexto, estudos acerca destes alimentos têm ganhado destaque, principalmente os estudos que analisem a ação desses compostos bioativos com desfechos na saúde. Um estudo publicado pelo The Journal of Nutritional Biochemistry, avaliou os benefícios das cerejas ácidas na microbiota intestinal. A cereja ácida (Prunus cerasus), conhecida também como ginja ou amarena é uma fruta nativa da Europa e do sudeste asiático e tem sido relatado potenciais benefícios para a saúde, atribuídos ao seu conteúdo específico rico em polifenóis.

Trata-se de um estudo, cujo objetivo foi investigar o impacto de cerejas ácidas e sucos de cereja na composição da microbiota intestinal humana; bem como, determinar o destino dos polifenóis das cerejas através da metabolômica. Fermentações in vitro foram usadas para testar uma variedade de cerejas e concentrados de cereja. Uma vez que se sabe que a composição da microbiota intestinal basal impulsiona fortemente o metabolismo dos polifenóis da dieta, uma intervenção alimentar humana também foi realizada com um concentrado de suco de cereja.

A intervenção foi conduzida em 10 participantes saudáveis ​​(5 = homens, 5 = mulheres) com idade entre 23 e 30 anos. Os participantes eram geralmente saudáveis, com função digestiva normal, não fumantes, e não haviam consumido nenhum tipo de antibiótico por doze semanas antes e durante a intervenção. Cada participante recebeu um concentrado de cereja azeda durante a duração do estudo. Os participantes foram instruídos a consumir aproximadamente 225 ml de suco por dia durante cinco dias. Além disso, eles receberam um kit de coleta de fezes e forneceram uma amostra de fezes antes e depois da intervenção dietética. Também foi realizado estudo in vitro, no qual cerejas ácidas, polifenóis puros foram submetidos a fermentação bacteriana e avaliados através do sequenciamento e metabolômica da sequência do gene 16S rRNA.

Os estudos in vitro demonstraram que o suco concentrado de cerejas contém a abundância esperada de antocianinas (cianidina – glicosilrutinósideo) e flavonoides (quercetina – rutinosídeo) e quantidades elevadas de ácidos clorogênicos e neoclorogênicos. A metabolômica alvo confirmou que os microrganismos do intestino foram capazes de degradar esses polifenóis. Descobriu-se que as cerejas ácidas induzem um grande aumento de Bacteroides in vitro, provavelmente devido à entrada de polissacarídeos, mas o efeito prebiótico também foi sugerido pelo aumento de Bifidobacterium a partir do ácido clorogênico.  A fermentação in vitro do suco concentrado resultou em aumento moderado de Firmicutes, Enterobacteriaceae e Bilophila específicos.

Já a intervenção dietética humana demonstrou respostas diferentes devido à composição inicial da microbiota, aparentemente impulsionada pelo consumo habitual de carboidratos e fibras. Indivíduos com elevada concentração de Bacteroides responderam com diminuição de Bacteroides e Bifidobacterium e aumento de Lachnospiraceae, Ruminococcus e Collinsella. Indivíduos com baixa concentração de Bacteroides responderam com um aumento de Bacteroides ou Prevotella e Bifidobacterium, e uma diminuição de Lachnospiraceae, Ruminococcus e Collinsella. Esses dados confirmam que o metabolismo da microbiota intestinal, em particular a potencial existência de diferentes metabólitos, precisa ser considerado em estudos que tentam relacionar o consumo de cerejas com a saúde humana.

Portanto, de forma geral, os autores concluem que os dados sugerem que a microbiota intestinal de indivíduos que consomem uma dieta mais ocidental pode ter menor capacidade de metabolizar polifenóis, reduzindo assim a biodisponibilidade e quaisquer benefícios potenciais para a saúde.

Obviamente, trata-se de um estudo com uma amostra limitada de humanos, no entanto, que apresenta resultados concordantes com o grupo de alimentos ao qual o alimento pertence. Sendo assim, é recomendado que mais estudos sejam recrutados para a tomada de decisão na prática clínica.

 

Referências bibliográficas:

Alba C. Mayta-Apaza, Ellen Pottgen, Jana De Bodt, Nora Papp, Marasini Daya, Howard Luke, Laszlo Abranko, Tom VandeWiele, Sun-Ok Lee, Franck Carbonero. Impact of tart cherries polyphenols on the human gut microbiota and phenolic metabolites in vitro and in vivo. The Journal of Nutritional Biochemistry ,Vol 59, September 2018.
Santos A.C.A., Marques M.M.P., Soares A.K.O., Farias L.M., Ferreira A.K.A., Carvalho M.L. – Potencial antioxidante de antocianinas em fontes alimentares: revisão sistemática. Centro Universitário Uninovapi Revista Interdisciplinar, v. 7, n. 3, p. 149-156, jul. ago. set. 2014

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