Adição de açúcar em alimentos saudáveis: um estudo de coorte.

O estudo mostrou uma associação inversa entre adição de açúcar no leite e em frutas frescas e adesão a padrões alimentares saudáveis.

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Já é bastante conhecido o papel do alto consumo de açúcar como agente envolvido na fisiopatologia de diferentes desfechos em saúde, sobretudo, no aumento da prevalência da obesidade, em virtude do aumento do consumo de energia pela população.

Dada essa importância, hoje vamos discutir um estudo de coorte europeu que investigou a associação entre o hábito de adicionar açúcares a alimentos reconhecidamente “saudáveis”, como o leite puro e frutas frescas, relacionado com indicadores de adiposidade e/ou qualidade da dieta, em crianças participantes do estudo IDEFICS (Identificação e prevenção de efeitos na saúde causados pela dieta e estilo de vida em crianças e bebês). A análise final foi conduzida em 9829 crianças que foram estratificadas de acordo com sua idade e sexo no início da pesquisa. Para a análise prospectiva, um total de 6929 crianças foram examinadas uma segunda vez, dois anos depois, durante o período de seguimento.

Variáveis ​​antropométricas, frequência de açúcares adicionados ao leite e frutas e escores de adesão ao padrão alimentar saudável foram avaliados no início do estudo.

Os dados mostraram uma associação direta entre as categorias que adicionam açúcar aos alimentos e os índices de adiposidade, em crianças de 6 a 10 anos, enquanto a menor frequência foi significativamente associada a maior adesão à alimentação saudável. No seguimento de dois anos, aquelas com maiores frequências de adição de açúcar apresentaram também aumentos significativamente maiores em todas as variáveis ​​antropométricas medidas, com exceção das meninas.

Para os autores, os resultados sugerem que o hábito de adicionar açúcares aos alimentos que são comumente percebidos como saudáveis ​​pode afetar a adesão às diretrizes alimentares saudáveis ​​e também aumentar o risco de adiposidade.

Outros malefícios, conhecidos na literatura, do consumo excessivo de açúcar são: aumento do risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2, prejuízos para o aprendizado e memória, motivo para a formação de cáries, maior risco de obesidade e elevação dos níveis de triglicérides.

A ONU (2003) recomenda que o consumo de açúcar de adição não ultrapasse 10% do total energético diário. Porém, dados da última Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) revelam que a média de ingestão entre os brasileiros é de 14% e que 61% da população possui um consumo excessivo de açúcar.

INFORMAÇÃO NUTRICIONAL – Porção 200ml (1 copo)
  Energia (kcal) Carboidratos (g)
Suco de laranja sem açúcar 90 20,82
Suco de laranja com açúcar 111,66 24,62

Fonte: Philippi, 2018.

Pensando nessas questões, os resultados só reforçam a ideia não apenas das boas escolhas alimentares desde o início da introdução alimentar das crianças, mas da formação de hábitos alimentares por parte dos pais e/ou cuidadores. É preciso (re)pensar nossas ações e os legados culturais alimentares, adaptando-os as novas diretrizes e descobertas da ciência. Adicionar açúcar ao leite ou as frutas pode ter sido uma prática bastante comum em décadas passadas. Mas, hoje, sabe-se (e não apenas por este estudo), que é fundamental oferecer estes alimentos tal como se apresentam, para as crianças. É importante, por exemplo, que a criança reconheça os diferentes sabores das frutas: o doce, o amargo, o azedo e assim, possa formar seu paladar. Que tal experimentar novas abordagens?

 

 

Referências bibliográficas:

Dello Russo, M., Ahrens, W., De Henauw, S., Eiben, G., Hebestreit, A., … Kourides, Y. (2018). The Impact of Adding Sugars to Milk and Fruit on Adiposity and Diet Quality in Children: A Cross-Sectional and Longitudinal Analysis of the Identification and Prevention of Dietary- and Lifestyle-Induced Health Effects in Children and Infants (IDEFICS) Study. Nutrients, 10(10), 1350.

 

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009 – POF. Rio de Janeiro, 2009.

MANHANI, Tatiana Monique et al. Sacarose, Suas Propriedades e os Novos Edulcorantes. Revista Brasileira Multidisciplinar, [S.l.], v. 17, n. 1, p. 113-125, jan. 2014. ISSN 2527-2675. Disponível em: <http://www.revistarebram.com/index.php/revistauniara/article/view/12/8>.

PHILIPPI, Sonia Tucunduva. Tabela de composição de alimentos: suporte para decisão nutricional. – 6. ed. rev. e atual. – Barueri, SP: Manole, 2018.

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