Ácidos Graxos Poli-insaturados e Saúde Cardiometabólica: evidências e controvérsias

Os dados dos ensaios clínicos randomizados que analisaram a substituição de ácidos graxos saturados por ácidos graxos polinsaturados ômega 6 em desfechos de doenças cardiovasculares sugerem benefícios potenciais, mas ainda são inconclusivos até momento.

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Sabe-se que para um planejamento alimentar adequado é necessário, além do equilíbrio e adequação de macronutrientes e micronutrientes, a preocupação com a qualidade desses nutrientes, em especial, os lipídeos. Já existem diferentes consensos de diversas sociedades que orientam a prática clínica em relação a distribuição e adequação dos ácidos graxos, como a I Diretriz sobre o consumo de Gorduras e Saúde Cardiovascular, da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

I Diretriz sobre o consumo de gorduras e saúde cardiovascular.
Ácido graxo Recomendação Nível de evidência Distribuição
Saturado (SFA) O consumo de ácidos graxos saturados além do recomendado está relacionado com alteração no perfil lipídico (aumento de LDL e de HDL). IA < 10% VET
Monoinsaturado (MUFA) Substituir SFA por MUFA é recomendado para otimizar a redução dos níveis plasmáticos de LDL-c IA MUFA = GT – SFA – PUFA – TFA
Poli-insaturado ômega-3 (PUFA n3) • Suplementação com w3 marinho (2-4 g/dia) deve ser recomendada para hipertrigliceridemia grave (> 500 g/dL), com risco de pancreatite. IA > 2,5% VET
• Pelo menos 2 refeições a base de peixe por semana devem ser recomendadas para diminuir o risco cardiovascular em indivíduos de alto risco como, por exemplo, os que já apresentaram IAM IB
Poli-insaturado ômega-6 (PUFA n6) Substituir SFA por PUFA n6 é recomendado para otimizar a redução dos níveis plasmáticos de LDL-c IA > 0,5 % VET
Trans (TFA) O consumo de TFA está relacionado com alteração no perfil lipídico (aumento de colesterol total e LDL e redução de HDL). IA < 1% VET
Fonte: SBC, 2013 e OMS, 2008.

 

Nesse contexto, hoje trouxemos um artigo com uma característica diferente para apresentarmos a discussão proposta pelos autores. Trata-se de uma revisão editorial realizada para fornecer uma visão geral de evidências e controvérsias sobre os efeitos dos ácidos graxos poli-insaturados (PUFAs) ômega 6 (ω-6) na saúde cardiometabólica, com ênfase nos riscos e fatores de risco para doenças cardiovasculares (DCV), especialmente doença coronariana, acidente vascular cerebral e diabetes mellitus tipo 2 (DM2) a partir da observação de dados oriundos de estudos de intervenção (ensaios clínicos randomizados – ECRs) e observacionais.

As Diretrizes Dietéticas expressa pelo Guia Alimentar norte-americano de 2015 recomendam limitar a ingestão de ácidos graxos saturados (SFAs) a uma quantia <10% da energia/dia e substituir os SFAs da dieta por ácidos graxos insaturados. A American Heart Association divulgou recentemente sua avaliação da relação entre gorduras na dieta e doenças cardiovasculares (DCV), e também recomendou uma mudança de SFAs para ácidos graxos insaturados, especialmente os PUFAs, em conjunto com um padrão dietético saudável. No entanto, a sugestão de aumentar a ingestão de PUFAs em geral, e de PUFAs ômega-6 (ω-6) em particular, continua a ser controversa.

Segundo os autores, os dados dos ECRs que analisaram a substituição de SFAs por ω-6 PUFAs em desfechos de DCV sugerem benefícios potenciais, mas são inconclusivos no momento, sendo necessários ECRs bem projetados e adequadamente controlados para elucidar mais claramente os possíveis benefícios cardiometabólicos e os possíveis riscos de substituir SFAs por PUFAs-6.

As evidências de ensaios clínicos de marcadores cardiometabólicos de risco de DCV e DM2 também indicam efeitos favoráveis ​​dos PUFAs ω-6 nos lipídios sanguíneos e sensibilidade à insulina, e um efeito neutro na pressão arterial. Embora o potencial de inflamação aumentada com o aumento da ingestão de AGP ω-6 seja frequentemente levantado como uma preocupação por recomendações dietéticas para aumentar o consumo de PUFA apesar de estudos observacionais e dados limitados em humanos de ECRs de marcadores de inflamação não suportarem uma associação entre inflamação e a ingestão de ω-6 PUFA.

Já as evidências epidemiológicas que sustentam uma relação inversa entre a ingestão de ácidos graxos ω-6 e a mortalidade por DCV, doença arterial coronariana, diabetes e DCV é maior e geralmente indica risco reduzido de doenças cardiometabólicas com maior ingestão de AGPIs ω-6.

Em conclusão, os autores apontam que os resultados obtidos a partir dos estudos incluídos na revisão, geralmente apoiam a recomendação de limitar o consumo de SFAs a <10% de energia/dia substituindo por ácidos graxos insaturados, bem como, a recomendação da American Heart Association, de mudar de SFAs para ácidos graxos insaturados, especialmente PUFAs, em conjunto com um padrão alimentar saudável. No entanto, atentam para a necessidade de ECRs adicionais serem realizados para avaliar com mais profundidade os efeitos da utilização de PUFAs ω-6 como um substituto para outros componentes da dieta, como SFAs, com avaliação de eventos de doenças cardiometabólicas.

Nesse sentido, é importante utilizar os guias dietéticos como parâmetro para a prática clínica, atentando-se para as quantidades de ácidos graxos preconizadas, visto que, constituem-se em um importante parâmetro que considera benefícios versus riscos de desenvolvimento de doenças, especialmente, as doenças cardiovasculares.

 

 

Referências bibliográficas:

 

World Health Organization. Joint FAO/WHO Expert Consultation on Fats and Fatty Acids in Human Nutrition. Geneva, 2008.

Maki, K. C.; Eren, F.;  Cassens, M. E.;  Dicklin, M. R.; Davidson, M. H. ω-6 Polyunsaturated Fatty Acids and Cardiometabolic Health: Current Evidence, ontroversies, and Research Gaps. Adv Nutr 2018;9:1–13.

SANTOS, R. D. et al. Sociedade Brasileira de Cardiologia. I Diretriz sobre o consumo de Gorduras e Saúde Cardiovascular. Arq. Bras. Cardiologia, São Paulo, v. 100, n. 1, p. 01-40, jan. 2013.

 

 

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