Açaí: do norte brasileiro para o mundo

O fruto tem ações favoráveis no metabolismo do HDL plasmático e na defesa antioxidante e por isso, seu consumo tem um papel benéfico à saúde do coração.

0
99

Na nossa série de discussões sobre alimentos regionais, vamos falar especificamente de alimentos típicos de cada uma das cinco regiões brasileiras: norte, nordeste, centro-oeste, sudeste e sul.

E para começarmos, hoje vamos falar sobre o açaí: fruto da região norte, mas que conquistou o paladar de brasileiros em todas as regiões do país.

O açaí, também conhecido como Juçara, no Maranhão, é original da Amazônia. Existem duas espécies de palmeiras predominantes que produzem esses frutos comestíveis e se encontram dispersas pela Amazônia: Euterpe oleracea Mart. e Euterpe precatoria .

Apesar de ter caído no paladar dos brasileiros, seu consumo é diferente de acordo com a região do país: na Amazônia, é consumido como parte de uma refeição principal, junto à farinha de mandioca ou tapioca, ou junto à peixe assado ou camarão. Nas regiões sul, sudeste e centro-oeste, é consumido na forma de bebidas, doces e sorvetes.

Basicamente, se diferem uns dos outros em termos de como as plantas crescem e sua composição fitoquímica: a Euterpe oleracea, mais conhecida e objeto de grande parte dos estudos, tem sido considerada uma ‘super fruta’ devido a alta capacidade antioxidante e grande valor nutricional, uma vez que contém fibra alimentar, antocianinas, minerais, especificamente, cálcio e potássio, além de ácidos graxos essenciais. Já os estudos sobre Euterpe precatoria permanecem raros.

Hoje, o fruto é consumido em diversos outros países, sendo os Estados Unidos e o Japão os destinos de 90% das exportações e os outros 10% estão divididos em Alemanha, Bélgica, Reino Unido, Angola, Austrália, Canadá, Chile, China, Cingapura, Emirados Árabes, França, Israel, Nova Zelândia, Peru, Porto Rico, Portugal e Taiwan.

 

E quais são os benefícios nutricionais do fruto?

Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros e publicados na revista Clinical Nutrition em 2017, avaliou os efeitos do consumo do açaí sobre lipídios plasmáticos, apolipoproteínas, transferência de lipídeos para HDL (que é uma relevante função da HDL), e alguns biomarcadores do metabolismo.

Para tanto, quarenta mulheres voluntárias saudáveis, ​​com idade média de 24 anos, consumiram 200g da polpa do fruto por dia, durante quatro semanas. As variáveis ​​clínicas e amostras sanguíneas foram coletadas antes e após esse período.

Os resultados indicaram que o consumo da polpa do açaí nessa amostra não alterou parâmetros antropométricos, pressão arterial sistêmica, glicose, insulina, colesterol total, LDL e HDL, triglicérides e apolipoproteína (apo) B, no entanto, aumentou a concentração de apolipoproteina A-1, proteína essencial para a solubilização de lipídeos no plasma, o que confere proteção antiaterogênica e, consequentemente, redução do risco cardiovascular.

Outro achado importante foi o efeito antioxidante provocado pelo consumo do fruto: reduziu as espécies reativas de oxigênio, a lipoproteína de baixa densidade oxidada (LDL-ox – tipo relacionado à formação de placas de gordura nos vasos) e o malondialdeído (importante biomarcador utilizado na avaliação do estresse oxidativo) enquanto aumentou a atividade da paraoxonase antioxidativa 1 (diversas enzimas que impedem o aumento de espécies reativas de oxigênio, conferindo   proteção às membranas celulares e neutralizando os efeitos da oxidação lipídica). Portanto, de forma geral, a capacidade antioxidante total foi aumentada.

Em relação à transferência de lipídeos plasmáticos para HDL, o consumo de açaí aumentou a transferência de ésteres de colesterol (p = 0,0043) para HDL, ou seja, houve uma importante eliminação de colesterol das paredes vasculares.

 

Isso significa que…

O açaí tem ações favoráveis ​​no metabolismo do HDL plasmático e na defesa antioxidante, e, por isso, seu consumo confere um papel benéfico contra a aterosclerose.

Como sempre gostamos de lembrar, trata-se de um estudo com limitações, principalmente pela amostra ser pequena, no entanto, ele está alinhado com demais estudos sobre esse fruto, que reforçam sua atividade antioxidante.

E claro, a recomendação nutricional deve ser sempre alinhada pelo nutricionista, com a quantidade recomendada individualmente!

 

Informação nutricional do Açaí           (1 porção/30g)*
Quantidade por porção
Energia 74,1 Kcal
Proteína 1,14 g
Carboidrato 10,98 g
Gorduras 3,66 g
Cálcio 35,4 mg
Ferro 3,54 mg
Fibra 5,07 g
Fósforo 17,4 mg
Vitamina B1 0,11 mg
Niacina 0,12 mg
Vitamina C 2,7 mg
Fonte: Tucunduva, 2013.
*Aproximadamente 20 frutos

 

Referências bibliográficas:

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Alimentos regionais brasileiros / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2015.

Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Açaí o sabor da Amazônia que se espalha pelo mundo: Além do Brasil, fruta é consumida na América do Norte, Europa e Ásia. – Brasília: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2016.

Breslow JL, Ross D, McPherson J, Williams H, Kurnit D, Nussbaum AL, Karathanasis SK, Zannis VI (novembro de 1982). «Isolation and characterization of cDNA clones for human apolipoprotein A-I»Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A79 (22): 6861–5. PMC 347233PMID 6294659doi:10.1073/pnas.79.22.6861

Lima, E. S. & Couto, R. D. Estrutura, metabolismo e funções fisiológicas da lipoproteína de alta densidade. – J Bras Patol Med Lab, v. 42 n. 3 p. 169-178, junho 2006.

Kang, J., Thakali, K. M., Xie, C., Kondo, M., Tong, Y., Ou, B., … Wu, X. (2012). Bioactivities of açaí (Euterpe precatoria Mart.) fruit pulp, superior antioxidant and anti-inflammatory properties to Euterpe oleracea Mart. Food Chemistry, 133(3), 671–677.

Pala D, Barbosa PO, Silva CT, de Souza MO, Freitas FR, Pinheiro Volp AC, Maranhão RC, de Freitas RN, Açai (Euterpe oleracea Mart.) dietary intake affects plasma lipids, apolipoproteins, cholesteryl ester transfer to high-density lipoprotein and redox metabolism: a prospective study in women, Clinical Nutrition (2017), doi: 10.1016/j.clnu.2017.02.001

Phillip, Sonia Tucunduva. Tabela de composição de alimentos: suporte para decisão nutricional/ Sonia Tucunduva Phillipi. – 4ed. rev. atual. – Barueri, SP: Manole, 2013.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, digite seu nome